Mesas de diálogos na VI FESP destacam avanços e desafios das Políticas Públicas de Sementes no Semiárido

DSC_0037Duas mesas de diálogo aconteceram na tarde desta quarta-feira, 14, primeiro dia da VI Festa Estadual das Sementes da Paixão e refletiram sobre: ‘O fortalecimento e ampliação das redes de seguridade de Sementes da Paixão no semiárido paraibano/brasileiro e o ‘Panorama das políticas públicas:  Conquistas e Ameaças a agrobiodiversidade no contexto do Semiárido brasileiro’.

Na primeira mesa, a agricultora Solange José, de Capoeiras, Cubatí  falou da experiência de ser guardiã das Sementes da Paixão: “É um prazer falar de sementes e da sua conservação, desde criança que aprendi com minha mãe a guardar, principalmente, as de hortaliças. Já a  fava Ceará, conheci através da minha sogra, já faz mais de 10 anos que cultivo essa semente junto com  minha família. Ser guardião pra mim é proteger, é multiplicar. Se guardarmos as sementes estamos protegendo a vida. Quero também falar da importância de se repassar esse conhecimento, porque é como diz na Bíblia, se Deus nos dá um talento é preciso multiplicar”.

O trabalho das mulheres também foi lembrando pela agricultora “É preciso valorizar também através das sementes, o papel das mulheres camponesas porque foram elas que conservaram por toda vida as Sementes da Paixão”. Por fim, Solange ressaltou ainda a importância dos bancos de sementes para a segurança alimentar das famílias.

Outro depoimento foi da agricultora e liderança do Polo a Borborema, Roselita Vitor, do Assentamento Queimadas, em Remígio-PB. Ela destacou o papel das famílias guardiãs ara a humanidade: “Se os guardiões não existissem, a gente não teria o que comer, sem as sementes crioulas, a gente não vive, elas são a autonomia das famílias, garantia de saúde. A nossa luta é de resistência, devemos essa luta as agricultoras e agricultores. Se a gente não tivesse a experiência prática das Sementes das Paixão, nós não teríamos condições de enfrentar o modelo do agronegócio”, afirmou.

O representante da Rede de Sementes da ASA Paraíba e assessor técnico da AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia, Emanoel Dias, trouxe em sua fala o que considera três eixos importantes para as redes de seguridade de sementes do Semiárido: “O primeiro se dedica à diversidade genética que nós temos no semiárido – a sabedoria camponesa que anda em harmonia com a natureza”. Outro eixo citado é o trabalho em rede, o trabalho da coletividade para fortalecer os temas que motivam as ações da ASA: “Sozinhos não vamos muito longe, o esforço de revitalizar os Bancos Comunitários de Sementes tem um grande papel para a construção em rede, porém temos que aumentar o número de bancos, até quando nós vamos continuar falando de 225 bancos de sementes na Paraíba? Temos que nos fortalecer porque quando o agronegócio vem ele vem com força. Precisamos pensar nos agricultores que não estão nesses bancos. Pensar na retomada do diálogo com o governo da Paraíba”. Por último, o terceiro eixo, segundo Emanuel, são as conquistas reconhecidas da primeira edição da festa até esta última, dentre elas, ele citou o fortalecimento dos BCS e o acesso a pesquisa: “As pesquisas ajudaram as instituições e organizações a reconhecerem as nossas sementes”.

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Já a representante da Articulação Semiárido Brasileiro (Asa Brasil), Cristina Nascimento, disse que sem o trabalho dos agricultores a ação em rede seria morta e falou que o Programa uma Terra e Duas Águas (P1+2) trouxe para a centralidade das políticas públicas o debate da produção de alimentos saudáveis. Sobre as Sementes, ela ressaltou que a base do tema das Sementes da Paixão é a ASA PB, porque ela sempre pautou esse assunto na ASA Brasil. Ela falou da novidade do Programa de Sementes, desenvolvido pela ASA em parceria com o governo: “Nós não podíamos reproduzir um projeto que incentivasse a distribuição de sementes, é preciso trazer o debate das sementes a partir do que cada agricultor e cada agricultora faz. Nós não queremos padronizar, nós não queremos criar modelos e sim trazer para a ciranda da ASA as mais diversas variedades”, finalizou.

A segunda mesa teve como facilitador o assessor técnico da AS-PTA integrante da Comissão Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (CNAPO), Gabriel Fernandes, que iniciou sua fala afirmando: “As Sementes da Paixão são patrimônio da humanidade e a juventude rural é a grande herdeira desse patrimônio genético”. Gabriel saudou a presença dos povos indígenas na festa e celebrou o que segundo ele é a grande conquista desta edição da Festa das Sementes da Paixão, a institucionalização da agroecologia: “Nós temos nesta festa o marco da instituição da agroecologia, cada vez mais a gente esta conseguido mobilizar a academia e as pesquisas para fortalecer Agricultura Familiar de base agroecológica e nós entramos neste caminho porque acreditamos que a agroecologia é o modelo sustentável para a agricultura deste país. E tudo isso, foi sendo construído em espaços como esse, da Festa das Sementes”.

O palestrante destacou a importância da reforma agrária para consolidação de um projeto agroecológico: “Nós só vamos avançar quando o acesso a terra passar a ser parte estruturante para o projeto da agroecologia no Brasil”. Entre os desafios apontados por ele, estão Politica Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica que precisa respeitar a diversidade dos territórios; A distribuição exacerbada de sementes de outras regiões; O Programa Nacional de Sementes e Mudas que, segundo ele, precisa avançar em relação as políticas de sementes.

Outro ponto explorado por ele foi o avanços dos transgênicos: “O Brasil é o primeiro usuário de agrotóxicos do mundo e também o egundo em consumir transgênicos. Outra preocupação é com as Sementes da Conab que são vendidas como ração, pois o órgão não informa que essa semente é transgênica, com o risco de essa semente ser plantada e vir a contaminar as sementes da Paixão”. Gabriel falou ainda sobre o enfretamento sobre a retirada da rotulagem dos transgênicos e sobre o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) problema de mudança de concepção do PAA, antes, era um programa que incentivava a sociedade a oferecer sua produção e a agora o governo é quem está demandando o que quer comprar. O PAA  tá no campo de disputa.

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Como avanços, Gabriel enumerou: “O Programa Sementes do Semiárido, que  foi criado para valorizar as famílias e as sementes crioulas;  A ciência brasileira está refazendo seus discursos, já conseguimos isso quando nossas sementes foram reconhecidas; A mesma Embrapa que trabalha com o agronegócio, também abriu as portas para pesquisar nossas sementes”. Ainda como avanços foram citados o novo Pronaf, que vai ser menos vantajoso para quem plantar transgênico e o reconhecimento do papel que cumpre cada guardiã e cada guardião com as sementes.

Gabriel encerrou reafirmando a importância política da Festa das Sementes para o projeto de convivência com o Semiárido: “A festa é momento muito importante para o fortalecimento do nosso projeto, ela vem nos reanimar e reafirmar nosso compromisso com a Agricultura Familar”.

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